WebtivaHOSTING // webtiva.com . Webdesign da Bahia

A MELHOR TERRA DO MUNDO PARA PLANTAR CACAU – PARTE I

.

As estradas do Sul da Bahia recortam terras de glória, sofrimento e redenção. A extensão territorial, que vai das imediações de Salvador até a fronteira com o Espírito Santo, engolindo montanhas e beirando o mar, foi repetidas vezes transformada pelo cacau. O fruto divino, no Brasil uma criação da Amazônia, encontrou nas matas baianas a casa perfeita. Nem parece que um dia não esteve ali. Desconsiderá-lo é apagar o passado, inviabilizar o presente e condenar o futuro do Sul da Bahia. O cacau é inescapável.
Pela tradição, talvez seja uma das indicações geográficas mais antigas do Brasil, ao lado da cachaça. Data de 1655 a primeira referência da presença de cacau no Sul baiano, apesar do adensamento do cultivo ter ocorrido em meados do século seguinte. Foi incentivo da coroa portuguesa, cativada pelo sabor e pelo potencial de comércio. Na faceta triste da história brasileira, as amêndoas de cacau serviram até de moeda para comprar escravos.
Por isso, soa estranho que o reconhecimento do Sul da Bahia como uma IG seja tão recente: o registro de Indicação de Procedência saiu em 2018. Precisamos voltar um pouco no tempo para entender por que isso aconteceu.
A GLÓRIA
Há mais de 200 anos, o plantio de cacau no maior estado nordestino funciona no sistema cabruca. As árvores crescem em meio à Mata Atlântica, resguardadas do sol pela vegetação nativa, raleada para abrir espaço para o cacau. “Venha cá brocar a mata. Cá brocar. Cabrucar. Cabruca nasceu dessa corruptela”, explica José Carlos Maltez, produtor e chocolateiro. A semelhança com as condições da Amazônia, onde a floresta é sombreada, úmida e quente, consagrou o sistema agroflorestal na Bahia.
Ilhéus se desenvolveu e enriqueceu a reboque do cacau. O milagre econômico atraiu gente de todos os cantos. Uma elite formada quase que da noite para o dia subiu casarões, passeios e cabarés. Assim se constituía a Princesa do Sul. O cacau transformou aventureiros em novos ricos.

Carregamento de cacau é despachado no porto de Ilhéus no início do século XX – Acervo/Prefeitura de Ilhéus
No século XIX, as primeiras cargas de cacau saíram da Bahia rumo aos Estados Unidos. No século seguinte, o cacau passou a ser o principal ativo de exportação do estado e o que ficou conhecido como Bahia Superior, ou Tipo 1 de cacau, entrou na Bolsa de Valores de Nova York.
Até meados de 1920, o Sul da Bahia foi responsável por fazer do Brasil o maior produtor do mundo. Apesar disso, custou até o país se tornar também um grande consumidor de cacau e chocolate.
O sucesso não trouxe apenas rios de dinheiro. A fartura fez crescer a cobiça por terras na região, incitando um clima de constante tensão e animosidade entre os barões do cacau. A opulência da “capital do Sul” contrastava com a violência e a exploração de trabalhadores no campo.
O FRUTO LITERÁRIO
Esse foi o pano de fundo da infância de Jorge Amado. O escritor é um dos principais, senão o principal narrador da literatura de cacau. “A melhor terra do mundo para o plantio do cacau, aquela terra adubada com sangue”, escreveu, no célebre Terras do Sem-Fim (1943), durante seu exílio na Argentina. O livro aborda não só a metamorfose de simples agricultores em coronéis enriquecidos pela cabruca, mas as consequências do conflito pela posse da terra. AMANHÃ PARTE II

.

Comentários estão fechados.