WebtivaHOSTING // webtiva.com . Webdesign da Bahia

CIÚMES, CHANTAGEM EMOCIONAL: LÉSBICAS TAMBÉM SOFREM COM RELAÇÕES ABUSIVAS

.

A ilusão de que relações amorosas entre mulheres estariam livres de marcas opressivas, como o machismo estrutural, é um dos principais fatores que as dificultam identificar um relacionamento abusivo. “Acreditamos que em um envolvimento homoafetivo entre mulheres exista mais lealdade, sororidade, fraternidade, que seja uma relação mais horizontal”, comenta a psicanalista Lia Novaes, doutora em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo (USP).
Soma-se ainda o fato de a ótica dos relacionamentos abusivos estar voltada majoritariamente para relações heterossexuais. “O monopólio da relação abusiva é descrito classicamente entre homem e mulher, mas isso não quer dizer que ela se encerra aí”, diz Novaes. Universa conversou com mulheres lésbicas e bissexuais que comentaram a dificuldade em entender que foram vítimas de abusos por outras mulheres e contam como colocaram fim às relações.
“ELA DISSE QUE POR ME OFERECER AJUDA FINANCEIRA E MORADIA IRIA ME CONQUISTAR”
Quatro meses após terminar um casamento abusivo com o ex-marido, a pedagoga Meg Silva, de 27 anos, conheceu uma mulher que a ajudou muito no processo de cura. Foi quem a levou a um coletivo feminista onde refletiu sobre muitas questões. À vontade e segura, relatou à nova amiga tudo o que tinha vivido, esmiuçando angústias e traumas.
A relação que começou como amizade foi, aos poucos, gerando interesse em ambas. “Eu pensei ‘que mulher incrível, quero me relacionar com ela'”, lembra Meg. Ali, deixou claro uma coisa: que era não-monogâmica e, caso se envolvessem, não teriam um relacionamento fechado – a única exceção que abriu até então havia sido com o ex-marido. Ela aceitou e disse que estava tudo bem.
“No começo foi tudo lindo e eu acreditava que, por ela ser uma mulher feminista e eu ter contato sobre a minha experiência anterior, não seria uma relação abusiva. A base da relação era de amizade, eu me abri com ela”.
Pouco tempo depois, Meg ficou desamparada e sem casa. Foi quando a amiga sugeriu que morasse com ela, como forma de ajuda. E então começaram os problemas. “Ela disse que queria me ajudar, sem segundas intenções. Fomos morar juntas e aí, um mês depois, ela começou a me agredir verbalmente, coisa que o meu ex fazia.”
Além das ofensas, um ponto latente começou a incomodar Meg: a insistência para que se tornassem namoradas. “Em uma das nossas brigas, ela me falou que me oferecendo ajuda financeira e moradia conseguiria me conquistar, fechar o relacionamento”, lembra.
Ela sempre soube das minhas intenções e dizia que estava tudo bem. Quando ela me ofereceu lugar na casa dela e eu fui, ela começou a me manipular com a situação financeira, com a casa. Dava a entender que, por eu morar lá, eu teria que fazer tudo o que ela quisesse, ser a namorada dela. Era como se esse fosse o preço de morar lá.”
As ofensas não eram xingamentos, eram sempre sutis e relacionadas às diferenças sociais e de idade entre as duas – Meg é nove anos mais nova -, e à pedagoga ser “ingrata” depois de ter sido tão acolhida. “Ela não usava palavras de baixo calão. Então, era sempre ela tentando me inferiorizar. E tinha a questão social, nós duas somos muito diferentes. Eu sou negra, ela é branca, eu sou uma mulher periférica, ela é de classe média alta. Então, além do abuso, eu vejo o racismo que também estava nessa relação”, comenta.
Por iniciativa de Meg, elas se distanciaram duas vezes. Na primeira, a pedagoga percebeu que era induzida a se sentir culpada pelos atos da mulher e saiu de casa. Depois de um pedido de desculpas, acabaram reatando. Foi quando os abusos psicológicos aumentaram, e Meg decidiu coibir qualquer contato, bloqueando-a em todos os meios possíveis. “Chegou em um ponto em que ela começou a procurar os meus amigos para saber onde eu estava morando, como eu estava, se estava saindo com alguém.”
“Depois de terminar meu casamento, eu tinha colocado na cabeça que não me relacionaria mais com homens. Me relacionar apenas com mulheres seria a chave para ter um envolvimento saudável e não passar mais por isso. Não foi o que aconteceu”, lembra.

Luana percebeu que vivia um relacionamento abusivo ao ler relatos em grupo sobre o assunto no Facebook.

“PASSÁVAMOS 24 HORAS NO TELEFONE”
Ciúme excessivo, atitudes controladoras, apertões no braço e chantagem emocional fizeram parte do primeiro relacionamento da estudante universitária Luana Silva, de 26 anos. Tudo começou muito rápido: após se conhecerem online e conversarem por algumas semanas, demorou 10 minutos para que sua ex-namorada se declarasse na primeira vez em que falaram por telefone. O pedido de namoro veio uma semana depois.
As ligações, inclusive, foram peça fundamental no relacionamento. Namorando à distância, costumavam se falar à noite. O que era tradição de algumas horas virou, a pedido de sua ex-namorada, rotina no dia inteiro. Passavam praticamente 24 horas em ligação, todos os dias.
Eu tinha o hábito de ler à noite e ela pediu para ler para mim. Eu pegava no sono, acordava e ela não tinha desligado. Conversávamos de manhã e ela pedia para eu silenciar [a ligação] enquanto tomava café, tomava banho. Raramente eu desligava o telefone, só se ela fosse sair”.
Ela começou a se incomodar com as atitudes da então companheira. Ao perceber que alguém olhava para Luana, a ex rapidamente a abraçava, a apertando ou a puxando pelo braço, para mostrar que estava acompanhada. “Ela falava ‘minha, só minha’. Em uma crise de ciúme, ela ficou nervosa e me empurrou na cama”, conta. No primeiro dia de aula de Luana, a ex-namorada a levou até à faculdade, esperou para que passassem o intervalo juntas e depois a trouxe de volta para casa.
Sabia que tinha algo errado no relacionamento, mas não conseguia identificar o quê. Me incomodava, mas pensava que tudo que ela fazia era por carinho, atenção”.
A ex-companheira inclusive justificava as atitudes dizendo que agia dessa forma por amá-la muito. Outro ato comum era controlar os gastos de Luana. “Pensei que ela queria que eu economizasse, mas quando era para comprar algo para ela, ela nem perguntava o preço.”
A relação terminou algumas vezes, sempre por decisão de Luana. A ex insistia que queria ser amiga e, por isso, continuavam em contato – inclusive com as ligações de 24 horas. Pouco tempo depois, sempre reatavam o namoro. As idas e vindas duraram quase dois anos.
Avisada por conhecidos, a estudante soube que a então namorada a traía constantemente na cidade em que morava. Decidiu dar um basta. Ao terminar, ouviu “grosserias” e, mais uma vez, o pedido para continuarem em contato como amigas. Aceitou, por achar que ela “não tinha com quem falar” e ficaria completamente sozinha.
Meses depois, Luana conheceu outra pessoa e engatou um romance. “A minha ex fez um grupo comigo e com a menina com quem eu estava, falando que ia me conquistar, que eu iria voltar pra ela”, lembra. “Foi quando eu percebi que, talvez, ela já não gostava mais de mim, mas sim tentava me manipular. Aí eu a bloqueei de tudo.”
Em relatos de grupos no Facebook sobre relacionamentos abusivos, Luana entendeu que tinha passado por um. “Eu acreditava que 90% do que ela fazia era porque estava muito apaixonada. A mulher começa muito sutilmente, ela não usa tanta agressividade, ela te manipula de uma forma e você aceita tudo como se fosse amor”, diz.
“ELA NÃO QUERIA ME DIVIDIR NEM COM A MINHA FAMÍLIA”

Yasmim Costa percebeu que estava na hora de terminar a relação quando teve uma crise de pânico no trabalho.

A oposição de uma ex-companheira às visitas que a autônoma Yasmim Costa, de 29 anos, fazia ao irmão foi um dos primeiros desconfortos na relação entre as duas. Natural de Alagoas, Yasmim mudou-se sozinha para São Paulo quando tinha 24 anos e via pouco os familiares. “Se eu fosse visitá-lo, era uma briga muito grande”, relembra.
Elas começaram a dividir uma casa pouco depois de se conhecerem: “Foi tudo muito rápido. Eu fechei os olhos e, em dias, estávamos morando juntas”. No dia a dia, o tom impositivo se intensificou após seis meses. A autônoma estava à mercê de decisões da então companheira sobre o que comeriam, onde passariam os fins de semana e as festas de fim de ano, além do destino ao dinheiro que Yasmim ganhava com trabalhos por fora.
Um dia, ao sair, ela se surpreendeu quando encontrou a ex em frente ao local em que estava para “buscá-la”. “Ela apareceu para ver com que eu ia até o metrô e se eu não estava fazendo nada de errado. Não queria me fazer uma surpresa. Ela falou: ‘Amor, eu estou em casa te esperando’. Eu respondi: ‘Beleza, vou embora em 30 minutos’. Quando saí, ela estava na porta.”
Em outra ocasião, também “bateu o pé” e saiu sem o “aval” da parceira. “Afinal, eu também tinha que ter vida”, diz.
Às 22h, eu estava em casa e ela não. Ela chegou na manhã seguinte, não quis conversar comigo, não deu satisfação. Depois, só falou que tinha passado a noite na rua. Quando ela queria ferrar com o meu psicológico, ela me falava esse tipo de coisa”.
Com a situação insustentável, tentou conversar e pedir um equilíbrio entre as diferenças que tinham. Mas, pouco depois, tudo piorou ao não participar de um encontro familiar da ex. “Foi um inferno na minha vida por mais de 48 horas”, diz ao lembrar que familiares participaram da discussão entre as duas. “Eu me senti um lixo, porque as pessoas acabam te convencendo de que você fez algo errado”, conta.
Nessa altura, o corpo começou a dar sinais e manchas roxas surgiram pela pele. Ela percebeu que era hora de terminar a relação quando teve uma crise de pânico durante o expediente e precisou ser levada à enfermaria da empresa.
A enfermeira fez alguns exames, me deu um remédio e falou ‘chora, bota tudo pra fora. Não sei o que está te afetando, mas é psicológico e você precisa cuidar disso’.
Resolvida, foi transparente com a namorada e explicou o porquê do término. “Por mais que a pessoa fosse maravilhosa com todo mundo, ela não seria para ter um relacionamento comigo”, afirma. A reação da ex-companheira foi turbulenta e Yasmim precisou ligar para a mãe para se acalmar, que a aconselhou a sair de casa que dividiam na hora.
“Em paz” por sentir que a decisão era o melhor caminho para ambas, ainda teve que lidar com a insistência via mensagens e ligações por mais de um mês. Depois de algumas semanas, conseguiu finalmente voltar a cuidar da vida. “As pessoas não entendem a gravidade [de um relacionamento abusivo]. Quando uma relação não está mais saudável para um, o outro tem que respeitar. E é importante que as pessoas saibam que existe chantagem emocional, existe trancar a pessoa dentro de casa, existe sofrimento”, alerta Yasmim.
QUANDO IR EMBORA
Na psicanálise, as necessidades da vítima de um abuso são associadas à dependência na infância. “De um lado, há alguém desamparado e, de outro, alguém que sabe tudo, onipotente. É como se o abusador soubesse mais sobre a vítima do que ela própria”, explica Lia Novaes. “E, vale lembrar, que a onipotência e a impotência são posições de uma mesma engrenagem, então muitas vezes o sujeito oscila sendo o violentador e o violentado”, completa.
Reconhecer desconfortos, avaliar a abertura para diálogo e compreensão são importantes, assim como identificar qualquer tipo de restrição, controle das relações com amigos e familiares, reprovações da forma como a pessoa se veste e se comporta.
“Outro sinal é quando a pessoa sempre se sente culpada, é considerada ‘a louca, a errada’ da relação. Qualquer tipo de chantagem emocional ou ameaça. Um relacionamento abusivo é uma relação em que, em geral, você se sente inferiorizada. Esses são indícios para se questionar se não é a hora de se retirar”, alerta a psicanalista. (Fonte: Universa.com.br)

.

Comentários estão fechados.