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RUI COSTA, O COLECIONADOR DE DESAFETOS

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Chefe da Casa Civil acumula poder e disputas, ancorado na confiança de Lula

Da van que levaria parte da comitiva de Luiz Inácio Lula da Silva para o segundo compromisso do dia em Araucária (PR), ministros se entreolhavam diante dos gritos que vinham de fora. Titular da Agricultura, Carlos Fávaro (PSD) havia se aproximado para pedir ao chefe da Casa Civil, Rui Costa, que tentasse encaixar na agenda do presidente um encontro com representantes do agronegócio gaúcho. A viagem do grupo terminaria no dia seguinte, justamente em Porto Alegre (RS). Era agosto de 2024, e o setor estava angustiado diante dos prejuízos causados pelas enchentes no estado. Costa, que entrava na van, mal quis parar para ouvir. Deu um fora no colega, explicitando que nada faria e despachou Fávaro.
— Vai pra puta que pariu, Rui! Vai falar assim com outro. Não sou seu peão, não! — estourou Fávaro, dando as costas.


O jeito ríspido de Rui já era conhecido. Transcorrida quase metade do governo, o chefe da Casa Civil Rui ganhava influência junto a Lula na mesma velocidade com que colecionava desafetos. Em pouco tempo, passou a ser uma das figuras mais antipatizadas de Brasília. Na sala de situação montada meses antes para acompanhar os esforços de reconstrução do Rio Grande do Sul, toda semana a lista de descontentes crescia. A irritação de Rui já havia recaído sobre ministros como Silvio Costa Filho (Portos e Aeroportos), Wellington Dias (Desenvolvimento Social), Carlos Lupi (então na Previdência) e o próprio Fávaro, que em frente à van no Paraná chegara, enfim, ao seu limite. Segundo colegas de ambos, o número de telefone de Rui, dali em diante, permaneceria bloqueado no WhatsApp do ministro da Agricultura.
— Minha função é traduzir o desejo do presidente e, às vezes, em tom de cobrança, porque tenho que preservá-lo. Se alguém tem que ser mais duro, sou eu. Quem tem que se desgastar para a máquina andar, não é o presidente. Ele tem que estar sempre alegre, sorrindo e feliz — disse Rui Costa ao GLOBO em seu amplo gabinete, no quarto andar do Palácio do Planalto.

Rui Costa, em sua sala na Casa Civil


Escalado por Lula para tocar a Casa Civil, o coração do governo, o ex-governador da Bahia levou a Brasília a maneira de fazer política que o transformou num fenômeno eleitoral inconteste, dono da maior votação nominal já registrada no Estado. O “Rui Correria”, como ficou conhecido entre os baianos, era o homem da “gestão”, das “obras”, da “conversa direta”. Em seu estado, no entanto, ele chefiava seus próprios secretários. Na capital, passara a ser um de 37 ministros de Lula, um grupo que incluía quatro ex-candidatos à Presidência da República e outros sete ex-governadores como ele. Em Brasília, a aspereza no trato o fez virar em pouco tempo o “Rui Grosseria” aos olhos de seus pares.
Uma das primeiras medidas de Rui foi sacar o “chefe” do título de seu cargo, que, antes, era “ministro-chefe” da Casa Civil. Não colou.
— A Casa Civil exige um maestro e não um xerife. Chefe mesmo só o presidente, mas ele (Rui Costa) trata os outros ministros como se chefe deles fosse — resume um colega da ala dos descontentes.
A frequência com que, sem cerimônia, deixava colegas esperando na antessala de seu gabinete cristalizou entre ministros, logo na largada do governo, a ideia de que Rui os tratava com desdém. Os atrasos irritavam chefes de outras pastas, com agendas igualmente repletas de compromissos.
Em março de 2023, o governo corria para amarrar os últimos detalhes do novo arcabouço fiscal, que permitiria Lula cumprir a promessa de derrubar o teto de gastos, quando o chefe da equipe econômica, Fernando Haddad, deu-se conta de que estava a 45 minutos aguardando a chegada do ministro da Casa Civil para uma reunião. Deixou então o Planalto, assustando parte de sua equipe, que só previa seu retorno horas mais tarde.
— Olha, não tenho tempo para ficar esperando Rui Costa aparecer. Tenha paciência — disse Haddad, contrariado, ao entrar na Fazenda.
Não era pessoal. O mesmo expediente, tempos depois, levaria o então novo titular da Justiça, o ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal (STF) Ricardo Lewandowski, e o ministro da Defesa, José Múcio, a combinarem de deixar juntos uma reunião se houvesse chá de cadeira novamente. Rui não falhou e atrasou-se. Eles se retiraram.
A arte de não fazer muitos amigos pela Esplanada também foi exercitada por Rui dentro do Planalto nos primeiros dias do governo. O ministro entrou em rota de colisão com a primeira-dama, Rosângela da Silva, a Janja, ao manifestar-se contra a compra de móveis escolhidos por ela para redecorar o Palácio do Alvorada, a residência oficial da Presidência. Em sua avaliação, o custo elevado colocaria o governo na mira dos críticos — o que, de fato, aconteceu.
A criação de uma estrutura oficial para a esposa de Lula também os colocou em campos opostos. Janja acalentava o desejo de comandar o Gabinete de Ações Estratégicas em Políticas Públicas, que gostaria de ver criado para ela. Rui via empecilhos legais e foi segurando a decisão.
A tensão entre eles era evidente quando, numa reunião no Planalto, Janja cobrou uma posição. Rui despachava com colegas e manteve as ressalvas, mas ouviu do então ministro da Justiça, Flávio Dino, que um caminho jurídico era, sim, possível. Naquele mesmo dia, Janja recebeu um documento com uma proposta de texto. O tema, no entanto, não avançou.
DE SALVADOR A BRASÍLIA
Experiente na política, mas neófito no governo federal, o estranhamento entre Rui e Brasília foi mútuo. Com cinco meses no cargo, declarou, em visita à Bahia, que a mudança da capital tinha feito muito mal ao país, pois criara uma “ilha da fantasia”, desconectada da vida real. A fala, que mais tarde reconheceu ter sido infeliz, revoltou expoentes do Congresso, terreno no qual Rui já não nadava de braçada.
As queixas de bate-cabeça, acordos descumpridos sobre emendas e falta de tato do ministro se acumulavam de tal forma nos primeiros meses que o então presidente da Câmara, Arthur Lira, chegou a perguntar a Lula se ele não considerava trocar Rui por Haddad. Lula nada fez. Mas Rui tratou de se mexer.
Buscou aliados de Lira, pediu para se aproximar e conseguiu não só reverter a imagem negativa que o deputado tinha dele, como avocou para si a interlocução com o comando da Câmara.
Internamente, aliou-se ao ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira (PSD), cuja proximidade com o presidente também crescia. Passaram a fazer uma dupla afinada. A união de esforços dos dois levou à ruidosa demissão do presidente da Petrobras, Jean Paul Prates, em maio de 2024.
A dupla acusava Prates de infidelidade frente às ordens do presidente e de morosidade em deslanchar investimentos. Apesar de a estatal não estar diretamente ligada à Casa Civil, uma miríade de interesses atraía os olhares de Rui para a petroleira. Os investimentos da Petrobras são um dos motores da economia — mas não só isso.

Rui Costa, que precisou se adaptar à rotina da capital federal, após governar a Bahia por oito anos

Um dos casos que o ministro da Casa Civil acompanhou com atenção foi a operação da petroleira com a Unigel. Fechada no governo de Jair Bolsonaro, ela fora cancelada pela estatal após alertas do Tribunal de Contas da União (TCU). Mas a Petrobras colocou de pé um novo contrato com a empresa de forma a manter a reativação de fábricas de fertilizantes na Bahia — e a remuneração de um grupo empresarial com laços históricos com o PT baiano.
Com Prates, foram meses de desgaste numa relação estremecida que não poupava mais nem as audiências com a presença do presidente. Frente a Lula, com dedo em riste mirando o colega, o ex-senador acusou o ministro da Casa Civil de vazar informações para a imprensa para fritá-lo. Rui revoltou-se. Lula ficou ao lado de Rui e trocou Prates. Ex-presidente da Agência Nacional do Petróleo (ANP), Magda Chambriard, chegou ao posto com as bênçãos do chefe da Casa Civil.
— Gosto muito da forma que o ministro Rui trabalha. É direto, pragmático, sem nenhum mimimi. Discutimos o que entregar e quando. E é isso — disse a presidente da Petrobras, enumerando argumentos que costumam ser levantados por simpatizantes de Rui no governo.
A CADEIRA DOS EMBATES
A natureza do cargo na Casa Civil faz com que Rui tenha de imiscuir-se em todas as áreas do governo. Os embates são, portanto, inevitáveis e, se não houver esse tensionamento, o trabalho não está sendo bem feito, pondera um aliado. É lá onde os projetos são analisados em seu mérito e juridicamente antes de serem levados à mesa presidencial.
— Vai muita bola quadrada para lá. Rui pergunta tudo, questiona tudo no detalhe. Até porque é cobrado por Lula quando passa alguma coisa. Isso é do perfil dele, e ele exige que a equipe faça o mesmo — diz um integrante do governo acostumado com os despachos com o ex-governador.
Não à toa, no ambiente inóspito ao seu estilo em Brasília, Rui rapidamente forjou uma relação de extrema confiança com a secretária-executiva da Casa Civil, Miriam Belchior. Ex-ministra do Planejamento e ex-presidente da Caixa no governo Dilma Rousseff, ela é conhecida pelo estilo duro e sem rodeios, como Rui. A configuração da equipe é outro motivo de chiadeira entre os ministérios.
— Ali não tem ninguém para amaciar, dar um sorriso, estender a mão. Você sai atordoado. É a estratégia “bad cop, bad cop” — diz um ministro, em referência à abordagem na qual um policial se faz de durão enquanto outro posa de amigo do interrogado.
Um colega de partido de Rui, que faz reparos ao estilo do ex-governador, reconhece que ele atua criando uma espécie de cordão sanitário ao redor de Lula, avocando muitas vezes a culpa por decisões que o próprio presidente tomou de postergar iniciativas ou vetá-las. Para ele, Rui tornou-se o “grão-vizir” de Lula, comparando-o com a mais alta autoridade abaixo do sultão, no Império Otomano. E, como tal, também vez ou outra abusa do poder que tem, completa o correligionário de Rui.

Rui Costa, em seu gabinete, em Brasília


Para chefes de algumas pastas, Rui dificulta a tramitação de propostas com as quais não simpatiza, coloca problemas onde não existem e vai travando o andamento das ações.
— Às vezes, o presidente aprova a ideia e diz que pode fazer. Mas o diabo mora nos detalhes, né? Uma coisa é uma boa ideia, outra é ela ser traduzida num papel, com palavras e artigos — disse Rui.
A dinâmica faz com que projetos muitas vezes fiquem marinando nos escaninhos da Casa Civil, entre acusações de letargia do time de Rui e de ineficiência das pastas de origem. A criação da Autoridade Climática, uma ambição da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva (Rede), parou nessa etapa e, até hoje, não saiu do papel. Já a PEC da Segurança Pública, de Lewandowski, andou e foi enviada ao Congresso, a contragosto do chefe da Casa Civil.
Rui não escondia de ninguém que detestava a ideia. Convenceu Lula a, primeiro, chamar ministros que já foram governadores para opinar. Depois, a ouvir os atuais governadores. Nas reuniões, anuía balançando levemente a cabeça sempre que um argumento contrário surgia, enfatizando a posição, para irritação do time da Justiça.
O estilo “carrancudo”, como um amigo de muitos anos o classifica, é sua marca e vem de longe. Ao longo do tempo, foi sendo definido por uma mistura de conveniência e instinto de sobrevivência.
— Rui é duro, mas a vida também foi muito dura com ele — afirma um ministro.


OS PRIMEIROS PASSOS NO PT
Nascido em Salvador, Rui cresceu junto com três irmãos numa casa erguida sobre uma encosta na Liberdade, uma favela da capital baiana. Era comum, em dias de chuva forte, acordar com barulhos de deslizamentos e o medo constante de se ver soterrado por eles. O salário do pai, um metalúrgico, era pouco e a mãe, doceira, fazia faxinas quando as encomendas rareavam. Ainda criança, Rui acompanhava a mãe nos bicos, ajudando a limpar casas.
— Numa dessas vezes, ouvi da dona da casa: “Volte e limpe o banheiro de novo. Tudo que você for fazer na vida, as pessoas precisam olhar e conseguir falar que foi Rui quem fez”. Nunca me esqueci. E levei para a gestão — diz.
No início da década de 80, começou a trabalhar no Polo Industrial de Camaçari, a 50 quilômetros de Salvador, onde conheceu Jaques Wagner e teve contato com o movimento sindical. Filiou-se ao recém-fundado PT e, ao lado de Wagner, ajudou a erguer a legenda na Bahia.
Formou–se em Economia e só estreou na política em 2004, já com Lula no poder, quando, após uma tentativa frustrada, conseguiu se eleger vereador em Salvador. Logo foi puxado por Wagner, que conseguira romper com décadas da influência do grupo de Antônio Carlos Magalhães na Bahia e tornar-se governador. Foi escalado como secretário de Relações Institucionais, cuidando da articulação política e com municípios.
Aproveitando o bom momento do PT, conseguiu os votos para a Câmara dos Deputados e rumou para Brasília. Pouco depois, porém, foi novamente convocado a Salvador. Reeleito, Wagner o colocou como secretário da Casa Civil. Ali, fizeram uma divisão, na qual Rui abraçaria a “gestão” e Wagner, a política.
Partiu do então governador a ideia de que Rui deveria ser o candidato do PT nas eleições de 2014 e sucedê-lo. Lula torceu o nariz. Achava o secretário muito desconhecido. Mas a popularidade do PT levou Rui ao Palácio de Ondina, numa vitória em primeiro turno.
A correria para entregar obras virou uma obsessão do novo governador — entre elas, a construção de contenção de encostas, um eco dos medos da infância que levou à vida pública. Em 2018, o PT caíra em desgraça nacionalmente, com Lula preso e as acusações da Lava-Jato. Mas, na Bahia, o passo apressado de Rui o levou a ser reeleito em primeiro turno, com 75% dos votos.
Valendo-se do prestígio conquistado, aproveitou para fazer cortes e promoveu uma reforma da Previdência estadual. A postura austera fez de Rui malquisto por parte de movimentos sociais. O cacifou, no entanto, como bom gestor no meio político.
Com o retorno de Lula ao poder, o lugar de Rui estava garantido na Esplanada. Havia uma dívida de gratidão com o então governador, que deixara uma eleição certa para o Senado, abrindo espaço para Otto Alencar (PSD-BA) candidatar-se novamente. O acerto garantiu a força eleitoral do grupo que empurrou Jerônimo Rodrigues, um secretário totalmente desconhecido, a derrotar ACM Neto, o ex-prefeito de Salvador.
A escolha de Rui para Casa Civil, no entanto, foi uma surpresa para ele. Segundo interlocutores, Rui achava que seria abrigado numa pasta na área de infraestrutura, por exemplo. A fama de “gerentão” o talhava para o cargo, que já fora lá atrás ocupado por Dilma Rousseff — outra que deixou um rastro de poucos amigos no governo e na política em Brasília.
Deriva daí a principal fortaleza de Rui — e que enlouquece os demais ministros. Quanto mais reclamam dele, mais Lula parece gostar. Para o presidente, é Rui quem o permite “dormir tranquilo”, sabendo que ninguém passará “rasteira” nele, como disse em julho de 2024, numa das primeiras defesas públicas que fez do ministro.
Um aliado de longa data de Lula diz que era justamente esse estilo que ele queria imprimir na Casa Civil. Por isso, acabou apostando num quadro do partido com quem tinha, até então, pouca proximidade. Lula tentava mimetizar um modelo que o agradou com Dilma e afastar a dinâmica que trouxe desgaste com o político José Dirceu, seu primeiro chefe da Casa Civil ao chegar ao Palácio do Planalto, em 2003.
Para um ministro da ala contrária a Rui, Lula acabou colocando um “goleiro” como “atacante”, para usar uma metáfora que agrada o petista. Para o presidente, entretanto, a fidelidade canina do ex-governador baiano e o foco no trabalho o credenciaram a conquistar espaços — e o blindaram da investida de rivais.


Em reunião no início do ano, Lula deixou claro frente a todos os seus ministros a confiança no auxiliar: tudo deveria passar por Rui Costa e por Sidônio Palmeira, então recém-empossado ministro da Secretaria de Comunicação. A chegada do marqueteiro reforçou a influência da “República da Bahia” no Planalto — Sidônio foi responsável pelas campanhas que catapultaram o PT na Bahia e elegeu Lula à Presidência em 2022.
Se tranquiliza o presidente, a proximidade de Rui faz outros aliados olharem de soslaio para o ministro. É comum relatos de que o titular da Casa Civil deixa pouco espaço para conversas particulares com o presidente. O estranhamento chegou a ser levado a Lula, por exemplo, pelo diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, que confidenciou incômodo, segundo auxiliares do petista.

Rui Costa, em seu gabinete, em Brasília


Rui Costa diz não se incomodar com tantos relatos de reparos ao seu modo de se relacionar na política.
— O que incomoda é as pessoas serem injustas e dizerem coisas que não fiz. As pessoas não se identificam, mas saem muitas coisas publicadas que não são verdade, que não aconteceram, que são criações — afirmou.
Na crise envolvendo os descontos do INSS, o ministro criticou publicamente outra pasta, entrando em atrito com um colega, algo que diz sempre querer evitar. Em entrevista ao GLOBO, um dia antes de o governo anunciar as medidas para garantir ressarcimento aos aposentados, disse ver erros na condução do caso pela Controladoria-Geral da União (CGU), comandada por Vinicius Carvalho. Segundo ele, alertas não foram dados “a nível de ministro” para que o problema fosse estancado mais rapidamente.
A fala causou mal-estar no Planalto, pois tumultuou a tentativa de reação do time de Lula. Aos colegas de governo, Rui logo justificou-se, dizendo que não tinha dito exatamente o que o jornal publicou — a entrevista havia sido gravada com aval do ministro em seu gabinete.
Semanas depois do desgaste com Carvalho, o anúncio do aumento da taxação do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) por Fernando Haddad acabou explicitando mais uma vez o clima de desconfiança e mágoa entre os dois. Ambos haviam adotado recentemente o discurso de que, apesar das trombadas no início do governo, a relação havia melhorado. A tentativa de armistício, porém, durou pouco nos bastidores.
Tão logo ficou evidente que a taxação tornara-se um novo problema para o Planalto lidar, iniciou-se uma ofensiva para isolar na Fazenda a origem da nova dor de cabeça do governo petista. A equipe da Casa Civil passou a afirmar, sob reserva, que tivera exíguo tempo para analisar o conteúdo da medida. A versão indignou o time de Haddad, que argumenta ter seguido os trâmites no tempo apropriado e com aval presidencial.
Os conflitos entre Rui e Haddad se iniciaram assim que o governo foi montado e remetem às discussões sobre a construção da nova regra fiscal. Os dois discordavam das balizas a serem seguidas no modelo que substituiria o teto de gastos. Reverberando o discurso da ala mais gastadora do PT, Rui dizia que o governo não deveria abrir a mão de tantos recursos em busca da recuperação fiscal no curto prazo. Já Haddad argumentava que a credibilidade era um fator essencial e o plano apontava para um caminho de ajuste nas contas sem sacrifícios extremos.
Auxiliares do ministro da Fazenda passaram a creditar a Rui o vazamento de supostas críticas de Lula a respeito da “obsessão por superávit” da equipe econômica. Viam nos relatos uma tentativa de atrapalhar a empreitada de Haddad para aprovar o arcabouço fiscal. Rui sempre rechaçou a versão.


O plano, ao fim, foi enviado ao Congresso no início de 2023 da forma como Haddad queria. Rui, no entanto, voltou à ofensiva no fim daquele ano, argumentando que o governo deveria alterar a meta fiscal para 2024. Era uma forma de garantir uma folga a mais para obras, afinal, em seu guarda-chuva está o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Haddad precisou novamente segurar na unha a manutenção do plano fiscal como proposto.
No final do ano passado, foi o chefe da Fazenda que amargou uma derrota num debate que tinha Rui do outro lado. O titular da Casa Civil até que deu ajudou no plano de Haddad de segurar gastos, mas acabou apoiando a ideia de Lula de anunciar o pacote de contenção de despesas junto com a isenção de imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil. Haddad dizia que o mercado ficaria nervoso e a cotação do dólar explodiria — o que aconteceu.
Os sucessivos embates deixaram marcas profundas na relação dos dois. O chefe da Fazenda passou a despachar com Rui quando instado pelo presidente e aumentou o número de vezes em que enviava o secretário-executivo, Dario Durigan, em seu lugar para reuniões na Casa Civil.
Adeptos de estilos diametralmente opostos, restou evidente a Rui e Haddad que havia pouca sintonia entre os dois. Além disso, acabaram empurrados a uma disputa velada sobre quem se tornaria o “homem forte” de Lula no governo — e o nome mais forte para a sucessão.
Haddad era o candidato natural. Ministro da Educação de Lula nos primeiros mandatos, escalado por ele para representá-lo na corrida presidencial enquanto estava preso em 2018, ele é visto como “filho” por Lula, dizem integrantes do PT. O ex-prefeito de São Paulo chegou à Fazenda após perder a disputa ao governo paulista, mas com a marca de melhor resultado da história do PT na corrida pelo Palácio dos Bandeirantes.
O nome de Rui, porém, entrou rapidamente nos cálculos da sucessão. Além da popularidade na Bahia, a comparação com a trajetória de Dilma passou a ser frequente e ganhou mais força conforme ele se mostrava inabalável na Casa Civil. Não houve cizânia com Janja, reclamações de ministros ou estocadas do Congresso que parecesse trincar a relação dele com o presidente Lula.
Dias após notícias darem conta de que uma delatora na Bahia havia implicado Rui num escândalo de compra de respiradores durante a pandemia, o presidente Lula fez questão de afagá-lo, dizendo que ele era como um “primeiro-ministro” de seu governo.

Rui Costa, inabalável diante de conflitos com ministros e mal-estar com a primeira-dama


Mais recentemente, o vazamento de uma fala de Janja ao presidente chinês, Xi Jinping, sobre a atuação da rede social Tik Tok no Brasil enfureceu Lula, que reclamou publicamente. Ministros apontaram o dedo para Rui nos bastidores, que se disse alvo de “fogo amigo”.
Lula não piscou. Dias depois do episódio, já no Brasil, lançou nova boia a Rui, gabando-se em evento com prefeitos que o “melhor governador da Bahia” jogava em seu governo.
Enquanto Lula mantiver o discurso de que tentará a reeleição, a discussão sobre quem irá sucedê-lo ficará suspensa. Ainda que a escolha do nome de seu vice pudesse ser usada para indicar uma predileção, o cenário é visto com ceticismo por aliados a preço de hoje. Na disputada eleição que se avizinha, Lula precisará do maior número possível de aliados em outros partidos.
As últimas pesquisas mostraram que a corrida presidencial de 2026 está em aberto e Lula, em apuros. A rejeição ao petista nunca foi tão alta, com perda de terreno em setores que tradicionalmente andam com ele, como os mais pobres, as mulheres e os nordestinos.
Rui solidificou a confiança de Lula para ser o capitão do time, ao menos até abril do ano que vem, quando terá de deixar o governo para disputar o Senado. São nove meses de trabalho à frente. “Rui Correria” terá de apressar o passo. (Fonte: infográfico.oglobo.globo.com por Renata Agostini)

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