TRAGÉDIA ANUNCIADA: IGNORAMOS OS SINAIS? – Pelo Prof. Zenildo Santos Silva – ZOOM
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No domingo, 30 de novembro, o jovem Gerson Machado, de 19 anos, morreu após invadir a jaula de uma leoa no Parque Zoobotânico Arruda Câmara, em João Pessoa. A leoa, ao detectar sua presença, reagiu prontamente — a perícia constatou que a morte foi causada por hemorragia no pescoço.
Segundo relatos de quem o acompanhava, Gerson tinha diagnóstico de Esquizofrenia e apresentava sintomas psicóticos ativos. Ele acumulava um histórico de vulnerabilidade: infância marcada por acolhimento institucional, abandono familiar (sua mãe e avós também sofriam de transtornos), 16 passagens pela polícia — sobretudo por furtos e danos — e pedidos de internação psiquiátrica que nunca se concretizaram.
Para quem acompanhou sua trajetória, o desfecho não surpreendeu. A conselheira tutelar que o conheceu desde a infância descreveu o episódio como “a última etapa de uma tragédia anunciada”: Gerson não recebeu o apoio e o tratamento especializado que lhes foram prescritos por laudos, restando apenas o abandono institucional e social.

Esse caso expõe com força a urgência de fortalecer a rede de saúde mental para acolher pessoas que demonstram vulnerabilidade psíquica. Muitas vezes, sinais de sofrimento mental são interpretados como “problemas de comportamento”, negando a dimensão clínica e social do transtorno. A falta de escuta adequada, de vínculo terapêutico e de encaminhamento consistente pode gerar consequências irreversíveis.
É fundamental que a comunidade: familiares, vizinhos, conselhos tutelares, escolas, associações, igreja — esteja atenta aos sinais de sofrimento: isolamento, confusão de ideias, delírios, pedidos de ajuda truncados, comportamentos repetitivos ou fantasiosos. Ao identificar algo, é urgente buscar apoio profissional — em unidades básicas, CAPS, Centros de Saúde Mental, terapias comunitárias — e garantir acolhimento e orientação.
O luto por Gerson deveria servir como um alerta coletivo: a proteção social e a saúde mental não podem esperar pelo ponto de ruptura. Investir em prevenção, direitos, empatia e garantias de cuidado é responsabilidade de toda sociedade. Sem isso, outras tragédias podem se repetir.
*O artigo não reflete necessariamente a opinião do blog (contrariamente aos editoriais, que são a posição oficial)
Zenildo Santos Silva-ZOOM – Educador e psicólogo; doutorando em Educação pela UNEB, Mestre em Ensino e Relações Etnicos –raciais pela UFSB, e graduado em Psicologia e Letras.
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