ESTUDO EXPÕE CONTRADIÇÕES DO MERCADO DE CHOCOLATE E REFORÇA PAPEL DOS CHOCOLATES ARTESANAIS DE ORIGEM NO BRASIL
Por Durval Libânio Netto Mello - Produtor e Pesquisador na área de cacau e chocolate
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Em janeiro deste ano, pesquisadores do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo (Cena-USP), em Piracicaba, divulgaram um estudo que analisou 211 amostras de 116 marcas de chocolate em barra vendidas no país. O trabalho trouxe um resultado animador e outro preocupante, algo que já prevíamos.
Enquanto os chocolates artesanais de origem se destacam pela alta presença de cacau e maior transparência na rotulagem, boa parte dos produtos populares ainda é dominada pelo açúcar, o que ajuda a explicar a baixa demanda interna por cacau e seus reflexos na renda do produtor.
Os chamados chocolates artesanais de origem, em geral nas categorias bean to bar e tree to bar, utilizam teores elevados de cacau, muitas vezes de 60%, 70%, 80% ou mais, com formulações curtas e baseadas essencialmente em cacau, manteiga de cacau e açúcar. Esses produtos recorrem a menos aditivos e evitam gorduras de baixa qualidade.
Já boa parte dos produtos em pó e muitos “chocolates” acessíveis ao público infantil se mostram, na prática, misturas em que o açúcar é o ingrediente predominante, chegando a composições em que cerca de 95% são açúcares e outros ingredientes energéticos, relegando o cacau a segundo plano – cenário que limita o uso de matéria-prima e contribui para uma demanda interna reprimida por cacau em grão e derivados de maior qualidade.
Outra característica marcante dos chocolates artesanais de origem é a transparência na rotulagem e na comunicação com o consumidor. As embalagens costumam informar de forma clara a porcentagem de cacau, a região produtora, a variedade utilizada e, em alguns casos, práticas socioambientais associadas à produção. Isso permite que o consumidor diferencie uma barra com 70% de cacau e poucos ingredientes de um produto ultraprocessado, rico em açúcar, aromatizantes e outras substâncias artificiais.
Ao fortalecer esse segmento, cresce também o potencial de ampliação do consumo interno de cacau de qualidade, com efeitos diretos na formação de preços e na redução dos chamados deságios praticados na compra do produto do agricultor.
No caso dos chocolates das grandes marcas comerciais, a situação é distinta. A rotulagem frequentemente cria uma expectativa de maior presença de cacau, com alegações como “40% de cacau” ou “sabor intenso”, que nem sempre se confirmam na formulação real, ainda largamente dominada pelo açúcar.
O descompasso entre a promessa estampada no rótulo e a composição efetiva acende um alerta sobre o grau de informação disponível ao consumidor. Além disso, ao basear o crescimento do mercado em produtos com baixo teor de cacau, a indústria reduz a necessidade de aquisição do grão no mercado interno, o que se traduz em menor poder de barganha dos produtores, descontos superiores às referências de bolsa (deságio) e pressão para manutenção de políticas de estímulo à exportação com renúncias tributárias, como o regime de drawback, que alivia custos industriais mas pouco se reverte em preço ao produtor.

O avanço do consumo de “chocolate” no mercado interno brasileiro, nos últimos anos, foi majoritariamente capturado pelas grandes indústrias, mas não se traduziu em aumento proporcional da demanda por cacau.
Em boa medida, isso se deve ao crescimento de produtos com menor teor de cacau e maior participação de açúcar e outros insumos mais baratos. O resultado é uma contradição estrutural: mesmo com um mercado de chocolates em expansão, a renda do cacauicultor permanece comprimida.
Na prática, a baixa absorção de cacau pelo mercado interno, somada à dependência de exportações de grão e derivados sob regimes especiais como o drawback, reforça uma lógica em que o valor agregado se concentra na indústria, enquanto o produtor convive com deságio recorrente em relação às cotações internacionais e alta sensibilidade a oscilações externas de preço e câmbio.
Especialistas apontam que a preferência crescente do consumidor por chocolates artesanais de origem, com maior teor de cacau e menor teor de açúcar, pode funcionar como um sinal de mercado para reorganizar a cadeia em direção à qualidade, à valorização da origem e à sustentabilidade. Essa mudança aproxima produção, processamento e consumo e abre espaço para que territórios cacaueiros ganhem visibilidade e renda.
Em síntese, ao escolher chocolates artesanais de origem, o consumidor brasileiro não apenas adota um padrão alimentar potencialmente mais saudável, com menos açúcar e maior presença de cacau, como também contribui para um modelo econômico que redistribui renda, valoriza territórios produtores e reduz a dependência de um sistema agroexportador concentrador de valor.

FICA A DICA DE ALGUMAS MARCAS ARTESANAIS E DE ORIGEM BRASIL:
Pelourinho Sabores Artesanais (Wenceslau Guimarães, BA) – chocolates artesanais com cacau selecionado, processamento próprio e forte vínculo com a agricultura familiar do Baixo Sul
Mania do Cacau / Ritaci França (Gandu, BA) – chocolates artesanais produzidos em Gandu, usando cacau da região e participando de feiras e festivais de economia popular e solidária
LR Chocolates (Gandu, BA) – produção artesanal de chocolates em Gandu, integrada à cadeia do cacau regional e à identidade local do Baixo Sul da Bahia
Baianí Chocolates (SP/BA) – bean to bar e tree to bar, cacau do sul da Bahia
Modaka Cacau de Origem (BA) – tree to bar, cacau de Barro Preto/BA, produção orgânica
Mendoá Chocolates (BA) – tree to bar, cacau de fazenda própria no sul da Bahia (sistema cabruca)
Bahia Cacau (BA) – cooperativa de agricultura familiar, chocolate de origem do sul da Bahia
Cacau do Céu (BA) – chocolate de origem com foco em sustentabilidade e alto teor de cacau
Dengo (SP/BA) – bean to bar com vínculo à origem e pagamento diferenciado a produtores
Luisa Abram (SP/Amazônia) – bean to bar com cacau selvagem da Amazônia
De Mendes (PA/Amazônia) – bean to bar com cacau de comunidades ribeirinhas amazônicas
Mission Chocolate (SP) – bean to bar, cacau de várias origens brasileiras
Mestiço Chocolates (BA) – tree to bar, cacau de produção própria no sul da Bahia
Gallette Chocolates (SP) – bean to bar, cacau de origem, associada Bean to Bar Brasil
Monjolo Chocolate Bar (SP) – bean to bar, seleção de chocolates de origem única
Ambar Chocolates (MG) – bean to bar mineira com foco em cacau nacional
Magian Cacao (RS) – bean to bar, cacau de origem do Pará
Alma Chocolates (SP) – bean to bar, cacau de origem brasileira
Pé de Chocolate (SP) – tree to bar com cacau orgânico da Serra do Mar
Amma Chocolate (BA/SP) – referência em cacau orgânico brasileiro, de origem.
Por Durval Libânio Netto Mello – Produtor e Pesquisador na área de cacau e chocolate.
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