CARTA AOS 69 ANOS DA CEPLAC: 46 ANOS DE VIDA DEDICADOS A ELA – Por Fernando Mendes
.
Hoje a CEPLAC completa 69 anos. 20 de Fevereiro de 1957.
Fernando Mendes, engenheiro agrônomo e renomado pesquisador
E eu completo 46 anos dentro dela.
Não escrevo estas linhas apenas para celebrar. Escrevo para lembrar. Para agradecer. Para questionar. E, sobretudo, para afirmar.
A CEPLAC — Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira — nasceu em 1957 para resolver um problema grave da cacauicultura brasileira. E resolveu. Não apenas equacionou uma crise produtiva: construiu um modelo. Um paradigma. Uma concepção moderna de desenvolvimento regional que integrava pesquisa, extensão rural e educação profissional sob o mesmo teto — algo que, até hoje, continua sendo referência.
Durante mais de três décadas, a cacauicultura brasileira foi sinônimo de modernidade tecnológica. O mundo olhava para o Brasil — e via a CEPLAC. Via ciência aplicada. Via inovação no campo. Via um modelo de produção sob sombreamento definitivo que hoje o mundo redescobre sob o nome de sistemas agroflorestais. O que agora é tratado como solução contemporânea para clima, biodiversidade e renda rural, nós já fazíamos quando ainda não era moda — era convicção técnica.
A CEPLAC chegou a ter quatro mil servidores. Hoje somos cerca de 10% disso. E praticamente todos com direito à aposentadoria. Desde 1987 não há concurso público para recomposição mínima dos quadros. Não temos orçamento próprio. Somos, muitas vezes, anexos administrativos de estruturas que não conhecem nossa história nem compreendem nossa singularidade.
E, ainda assim, resistimos.

Resistimos porque existe algo que não se mede em planilhas: existe o DNA institucional. Existe uma geração que foi formada por mestres que acreditavam no serviço público como missão. Existe uma poupança tecnológica construída por décadas de pesquisa séria, experimentação, erro, acerto e compromisso com o produtor rural.
O mundo continua reconhecendo a competência técnica que nasceu aqui. A cacauicultura mundial ainda consulta trabalhos produzidos sob nossa responsabilidade. Países tropicais seguem modelos que ajudamos a estruturar. E, paradoxalmente, internamente, convivemos com incertezas permanentes.
A pergunta que ecoa não é nova:
As autoridades que definem os rumos da agricultura nacional não enxergam o que acontece no mundo?
Ou manter o investimento público estruturado na cadeia do cacau realmente deixou de ser estratégico?
Vivemos um tempo em que sustentabilidade, agroflorestas, captura de carbono, restauração produtiva e inclusão social são prioridades globais. O cacaueiro sombreado — aquele que defendemos há décadas — é exatamente isso: produção com floresta em pé. Renda com biodiversidade. Ciência com responsabilidade ambiental.
Como pode, então, uma instituição com esse legado chegar aos 69 anos sem saber qual será o seu amanhã?
O que temos para comemorar?
Temos.
Temos a história.

Temos a honra de quem construiu.
Temos a dignidade de quem permaneceu.
Temos a consciência tranquila de que fomos — e ainda somos — necessários.
Celebrar 69 anos, para mim, não é abrir champanhe. É reafirmar propósito.
É honrar aqueles que já passaram e deixaram fundamentos sólidos.
É reconhecer os que permanecem sustentando a instituição com profissionalismo silencioso.
É afirmar que a CEPLAC não é apenas um órgão público — é um patrimônio técnico do Brasil.
Eu estou há 46 anos aqui.
Vi ciclos de abundância. Vi crises devastadoras. Vi a vassoura-de-bruxa abalar estruturas econômicas e emocionais. Vi servidores se reinventarem. Vi a ciência responder. Vi produtores resistirem.
E continuo acreditando.
A CEPLAC não pode ser tratada como memória. Ela é futuro.
Um futuro que o mundo já entendeu — talvez antes de nós mesmos.
Se há algo a comemorar nestes 69 anos, é a convicção de que permanecemos relevantes.
E enquanto houver quem carregue esse DNA institucional, ela continuará viva.
Com respeito, com inquietação, com esperança.
Fernando Mendes
Servidor da CEPLAC há 46 anos
.