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O PRÓCACAU E O BIOTERRORISMO: LIÇÕES DA HISTÓRIA – Por Antonio Carlos Magnavita Maia, médico e cacauicultor

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Não tenho qualquer hesitação em afirmar: o que ocorreu com a lavoura cacaueira do sul da Bahia foi um crime de bioterrorismo. Um crime cujas marcas permanecem abertas mesmo após mais de três décadas. Municípios empobrecidos, propriedades arruinadas, famílias desestruturadas — essa é a herança concreta de uma tragédia que jamais foi devidamente esclarecida.
Mas é preciso coragem para dizer algo ainda mais incômodo: esse desastre não nasceu do nada. Ele foi precedido por um erro estratégico monumental — o PROCACAU.
O programa foi concebido durante o regime militar, sob forte influência do General Golbery do Couto e Silva, formulador da geopolítica nacional. A ideia era ocupar a Amazônia, considerada berço natural do cacaueiro, dentro da lógica de integração territorial- terra sem homens, para homens sem terra.
À época, a Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (CEPLAC) era respeitada internacionalmente e sustentada majoritariamente pelos produtores do sul da Bahia, que financiavam a instituição por meio da retenção cambial. Era o dinheiro do produtor que mantinha a pesquisa, a tecnologia e a estrutura técnica.


E O QUE FOI FEITO COM ESSE PATRIMÔNIO?
Utilizou-se a força técnica e financeira construída pelos produtores baianos para fomentar uma expansão na Amazônia, ignorando riscos sanitários evidentes. Promoveu-se uma verdadeira migração de técnicos, trabalhadores e produtores, criando um fluxo contínuo entre regiões.
O ERRO PRIMÁRIO
Como médico, aprendi que diante de uma doença infecciosa o primeiro procedimento é o isolamento. No entanto, no caso do cacau, fez-se exatamente o contrário. Já se sabia que a vassoura-de-bruxa era altamente infecciosa e endêmica na Amazônia, e que não existia tecnologia capaz de controlá-la com segurança.
Ainda assim, o órgão técnico anuíu. Não houve resistência firme. Não houve enfrentamento técnico à decisão política. Houve submissão- “medalhões da ciência-lamberam botas dos generais”.
É inadmissível que uma instituição que detinha o maior conhecimento mundial sobre cacau tenha silenciado diante de um risco dessa magnitude. É imperdoável que dirigentes e técnicos não tenham imposto limites técnicos a decisões essencialmente políticas.


O SEGUNDO ERRO: MERCADO E PODER
O equívoco não foi apenas sanitário — foi também econômico e estratégico.
Expandiu-se a produção sem estruturar um projeto nacional robusto de industrialização cooperativa. Ignorou-se que o cacau é uma commodity sujeita à volatilidade das bolsas internacionais. Aumentou-se a oferta sem garantir autonomia na transformação industrial.
Enquanto isso, multinacionais como a Cargill avançavam silenciosamente, consolidando posições e ampliando influência.
O resultado foi devastador: exportadores nacionais enfraquecidos, indústrias absorvidas, produtores estrangulados entre o cartel internacional e políticas públicas inconsistentes. Perdemos a oportunidade histórica de construir independência econômica no setor.
A RESPONSABILIDADE HISTÓRICA
Não se trata apenas de apontar culpados, mas de reconhecer responsabilidades. Houve erro político. Houve omissão técnica. Houve falta de visão estratégica dos próprios órgãos de classe.
A história mostra que, quando o produtor não ocupa o espaço político que lhe cabe, outros ocupam — e decidem por ele.
Se não aprendermos com esse passado, continuaremos sendo espremidos por interesses maiores, ora travestidos de planejamento estratégico, ora de ideologia, enquanto o produtor paga a conta.
Eu não escrevo movido por ressentimento. Escrevo movido pela convicção de que o setor cacaueiro precisa agir com unidade, pragmatismo e firmeza. Precisamos influenciar políticas públicas de estado, fortalecer nossa organização corporativa e defender nossos interesses com clareza e coragem.

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