MULHERES VÍTIMAS DE ASSÉDIO SEXUAL NAS IGREJAS EVANGÉLICAS QUEBRAM O SILÊNCIO
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NO TEMPLO - Fiéis em celebração: as próprias mulheres não raro encobrem, por medo, os crimes dos quais são alvo (Shuang Paul Wang/Getty Images)
O Congresso dos Gideões, tradicional reunião anual de pastores de diversas denominações, transcorria na santa paz em Balneário Camboriú, Santa Catarina, quando um discurso fugiu radicalmente ao roteiro, causando tremores que até agora se fazem sentir no meio evangélico.
Era 2 de maio, um sábado de casa cheia, e a pastora Helena Raquel disparou no palco: “Pedófilo não é ungido. Pedófilo é criminoso. Não existe capacidade de se encontrar na mesma figura um pastor e um abusador”.
A pregação de uma hora e vinte minutos, proferida pela principal líder da Vida na Palavra, uma das vertentes da Assembleia de Deus, apontava o dedo para dentro do segmento religioso que mais cresce no país, chamando atenção para o fato de os casos de abuso sexual nos templos serem frequentemente varridos para debaixo do púlpito.
E, então, o que era para ser mais um encontro pentecostal voltado para quem se dedica a disseminar os escritos bíblicos virou dinamite nas redes ao lançar luz sobre um daqueles tenebrosos tabus envoltos em silêncio e que tanto mal traz às vítimas.
As palavras da pastora não foram apenas notáveis pela coragem, mas também pela raridade.
Embora aqui e ali líderes evangélicos tenham defendido junto a seus rebanhos a necessidade de denunciar crimes de cunho sexual, sobretudo quando praticados sob o teto dos fiéis, jamais alguém com tão potente microfone havia puxado publicamente a orelha de seus próprios pares.
“A mudança deve vir de dentro, de pastores comprometidos de forma inegociável com a verdade da Bíblia, que repudia a violência e o abuso”, afirmou Helena Raquel a VEJA.

INVERSÃO DE VALORES – A psicóloga Ane Almeida, 42 anos, levou meses para reconhecer que um pastor de sua confiança abusava dela quando tinha só 16 anos. “Passei a ser vista pelos outros fiéis como um demônio que o seduziu”, diz. (@dra.anealmeida @valmirsoul/Instagram)
Na Igreja Católica, uma ordem baixada em 2019 pelo papa Francisco tentou tirar, apesar da dificuldade e resistência, o manto de impunidade sobre as inúmeras denúncias de pedofilia e outros abusos sexuais praticados por padres, movimento que ganhou gás depois de uma vasta investigação do jornal americano Boston Globe, tema do filme Spotlight: Segredos Revelados.
Era ordem que veio de cima, embora ouvida com restrições. No universo evangélico, contudo, a decisão de enfrentar a chaga é sempre particular, depende de quem está à frente de cada feudo, em uma estrutura para lá de descentralizada, sem liderança nítida.
“Não há uma autoridade única para falar de medidas protetivas e penas”, diz a antropóloga Jacqueline Teixeira, pesquisadora de violência de gênero e religião da Universidade de São Paulo (USP). Ela faz, no entanto, uma ponderação: “A organização evangélica em torno de comunidades é menos engessada e pode facilitar a mudança”.
O primeiro passo tomado pela pastora encorajou sobretudo mulheres, a imensa maioria entre os que são alvo de abuso, a começarem a romper o silêncio. Nas últimas semanas, VEJA colheu depoimentos de vítimas de pastores que, mesmo tendo sofrido a violência há algum tempo, só agora resolveram cutucar a ferida aberta.
“Os pastores fazem tudo para não manchar a imagem da igreja. Por isso escondem essas violações”, diz a estudante Ana Carollo, 30 anos. Frequentadora da Assembleia de Deus no Rio de Janeiro, ela foi atacada quando tinha apenas 12 por um dos líderes, depois de ser chamada a uma sala sob o pretexto de auxiliá-lo com um programa de rádio.
“Ele começou a se masturbar e a massagear meu corpo. Eu não entendi na hora, mas sabia que tinha algo errado”, relata. Com a ajuda de uma amiga um pouco mais velha, o caso chegou aos superiores. Uma tia, então sua responsável, ficou frente a frente com o tal pastor, que negou tudo.
“A esposa dele, grávida à época, disse que eu estava destruindo sua família, me senti muito culpada. Deveríamos tê-lo denunciado, mas tive medo de ser retaliada”, desabafa Ana, que trocou de igreja.

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“FIQUEI DESAMPARADA” – Aos 12 anos, a estudante de psicanálise Ana Carollo, 30 anos, foi chamada à sala de um pastor que dizia precisar de ajuda, sem imaginar o que estava por vir. “Ele passou a mão no meu corpo enquanto se masturbava e, depois, disse que nada aconteceu”, relata. (./Arquivo pessoal)
MARCA NA ADOLESCÊNCIA – Por quase quatro décadas, a cantora gospel Vanilda Bordieri, 52 anos, escondeu que havia sofrido abuso ainda menina. Líderes de sua igreja insistiam para que ela saísse com um deles, recém-separado. “Ele forçou a relação sexual e foi embora”, conta. (@vanildabordieri/Instagram)
TREMOR NO PÚLPITO - Pastora Helena Raquel: apontando o dedo para colegas em discurso contra os abusos na igreja (@helenaraquelofc/Instagram)
(Fonte: https://veja.abril.com.br)
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