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ENSINAR SOB AMEAÇA: O BRASIL PRECISA RECONHECER O RISCO DA DOCÊNCIA – Pelo Prof. Israel Argôlo Leal

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O Brasil se acostumou a celebrar o professor no discurso e abandoná-lo na prática. Em datas comemorativas, multiplicam-se homenagens, frases emocionadas e declarações sobre a importância da educação. Mas basta observar a realidade concreta das escolas para perceber o tamanho da contradição nacional: enquanto o docente é tratado como peça central para o futuro do país, segue trabalhando em condições cada vez mais hostis, adoecedoras e perigosas.
A verdade, por mais incômoda que seja, precisa ser dita com clareza: em muitas escolas brasileiras, ensinar deixou de ser apenas uma atividade pedagógica e passou a ser também um exercício diário de resistência física, emocional e psicológica.
Nos últimos anos, a violência escolar deixou de ser exceção e passou a integrar a rotina de milhares de profissionais da educação. Professores são humilhados em sala, desrespeitados diante dos colegas, filmados clandestinamente, expostos em redes sociais, ameaçados por alunos, confrontados por familiares e submetidos a níveis alarmantes de pressão. Em alguns casos, as agressões ultrapassam o campo verbal e se tornam físicas. Em outros, a violência assume formas mais silenciosas, porém igualmente destrutivas, como o medo constante, a intimidação e o desgaste mental crônico.


Diante desse cenário, tornou-se insustentável tratar a docência como se fosse uma profissão exercida em ambiente normal. Não é. E fingir que é apenas contribui para aprofundar a precarização e o sofrimento de quem permanece sustentando, quase sozinho, a estrutura moral e intelectual da escola pública brasileira.
É justamente por isso que a discussão sobre o adicional de insalubridade e periculosidade para professores precisa ganhar urgência no Congresso Nacional. Não se trata de privilégio, exagero ou oportunismo. Trata-se de reconhecer, por meio da lei, uma realidade já visível para qualquer pessoa minimamente honesta com os fatos.
O adicional de insalubridade se justifica quando o trabalho expõe o profissional a condições nocivas à saúde. E é impossível negar que o ambiente escolar, em muitos contextos, tem produzido adoecimento severo em docentes. Ansiedade, depressão, síndrome de burnout, crises de pânico, insônia, hipertensão e afastamentos recorrentes já fazem parte do cotidiano da categoria. O sofrimento psíquico do professor deixou de ser episódio isolado para se tornar questão estrutural.
A periculosidade, por sua vez, se impõe quando há risco concreto à integridade do trabalhador. E também aqui os fatos falam por si. O aumento de ameaças, agressões, hostilidade e instabilidade nas escolas evidencia que muitos professores já exercem sua função em ambiente de risco real. Em determinadas realidades, entrar em sala de aula exige não apenas preparo pedagógico, mas estado permanente de alerta.


É preciso reconhecer ainda que esse quadro não surge do nada. A escola brasileira tem sido sobrecarregada por responsabilidades que antes eram compartilhadas com a família e com a sociedade. Muitos estudantes chegam às salas de aula sem limites básicos, sem tolerância à frustração e sem reconhecimento de autoridade. Quando a escola tenta corrigir, disciplinar ou orientar, frequentemente encontra resistência não só no aluno, mas também em responsáveis que enxergam qualquer medida educativa como afronta, abuso ou perseguição.
Nesse ambiente, o professor se torna responsável por tudo e amparado em quase nada. Deve ensinar, acolher, resolver conflitos, formar valores, preservar a disciplina e produzir resultados, mesmo sem respaldo efetivo, sem proteção suficiente e sob cobrança constante. A combinação entre sobrecarga, desautorização e insegurança produz um cenário profundamente injusto e insustentável.
A aprovação do adicional de insalubridade e periculosidade não resolverá, sozinha, a crise da educação brasileira. Não substituirá políticas de segurança, valorização salarial, fortalecimento da autoridade pedagógica e reconstrução da parceria entre escola e família. Mas terá um peso simbólico e material importante: será o reconhecimento institucional de que o trabalho docente, em muitos casos, ocorre sob condições anormais e lesivas.
Mais do que compensação financeira, a medida representa uma mudança de postura do Estado diante da realidade vivida pelos educadores. Significa admitir que não é aceitável naturalizar o adoecimento do professor. Significa reconhecer que não se constrói educação de qualidade sacrificando a saúde e a segurança de quem ensina. Significa, sobretudo, interromper a tradição perversa de exigir heroísmo permanente de uma categoria que mal recebe o básico em proteção e respeito.


A Câmara dos Deputados e o Senado Federal precisam decidir se continuarão presos ao conforto da retórica ou se assumirão a responsabilidade de agir. O tema exige debate sério, análise técnica e compromisso político. Mas exige, acima de tudo, urgência.
O Brasil não pode seguir tratando o sofrimento docente como detalhe administrativo. Professor não pode ser visto como instrumento descartável de um sistema que o consome até o limite e depois o substitui em silêncio. Valorizar a educação implica, necessariamente, proteger o educador.
Se ensinar, em tantas escolas brasileiras, passou a significar enfrentar medo, desgaste extremo e ameaça constante, então o país tem o dever moral e legal de reconhecer isso.
O restante é apenas discurso.
Israel Argôlo Leal, Psicanalista Clínico, Escritor, Colunista, Sócio-empreendedor da Doce Paula Gourmet, Mestre em Teologia, Professor da Rede Pública, Licenciado em História e Geografia, Bacharel em Direito, especialista em Psicanálise Clínica, Neuropsicanálise, TEA, Terapia de Alta Performance, Jornalismo Político, Ex-Vice-Presidente da Associação Batista do Extremo Norte da Bahia (2008), Ex-Vice-Presidente da OPBB no Extremo Norte da Bahia (2008) e criador do Chocolate Filosófico.

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