IGREJA INACABADA DE ALAGOINHAS NÃO FOI FEITA COM SANGUE DE BOI
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Quem visita Alagoinhas logo se depara com um dos cartões-postais mais conhecidos do município: uma igreja de grandes proporções, sem telhado, com paredes de pedra que resistem há mais de um século e meio.
Cercada por lendas e curiosidades, a chamada Igreja Inacabada desperta a imaginação de moradores e turistas, principalmente devido à história repetida ao longo de gerações: a de que sua estrutura teria sido erguida com sangue de boi e óleo de baleia misturados à argamassa.
Mas a versão, apesar de popular, não encontra respaldo na pesquisa histórica. “Não. Isso não é verdade. É uma tradição oral da cidade. Os estudos não falam sobre isso”, ressalta a pesquisadora da história de Alagoinhas e assessora cultural do município, Iraci Gama, em entrevista ao g1.
Segundo a pesquisadora, a igreja foi construída com os materiais utilizados nas edificações da época. A estrutura recebeu barro, argila especial, areia de qualidade e água abundante na região, sem qualquer registro histórico do uso de sangue de boi ou óleo de baleia na argamassa.
A explicação para o monumento nunca ter sido concluído é bem diferente, e ajuda a contar a própria história da cidade, que celebra 173 anos de emancipação política na última quinta-feira.

DA LAGOA QUE DEU NOME À CIDADE
A origem de Alagoinhas está ligada a uma pequena lagoa de água considerada pura, utilizada pelos moradores e pelos religiosos que passavam pela região. Ao lado dela foi construída uma capela dedicada a Santo Antônio, que passou a reunir a população do povoado.
Com o crescimento da comunidade, o local tornou-se Freguesia de Santo Antônio da Lagoinha em 1816. Décadas depois, em 1852, foi elevado à categoria de vila.
Ao g1, Iraci contou que o marco da emancipação aconteceu em 2 de julho de 1853, quando tomou posse a primeira Câmara Municipal. “Foi quando a vila passou a ter autonomia administrativa. Por isso o dia 2 de julho é considerado a data da emancipação política de Alagoinhas”, contextualiza.
UMA IGREJA PARA UMA CIDADE EM CRESCIMENTO
Na década de 1860, o antigo templo já não comportava o número de fiéis. O vigário Antônio Martins da Silva Teles liderou, então, o projeto de construção de uma igreja muito maior, financiada pelo governo da época.
As obras começaram em setembro de 1862. O projeto era ambicioso. A igreja seria maior do que qualquer templo existente na cidade, inclusive a atual Catedral de Santo Antônio.
“A fachada que vemos hoje está muito próxima do projeto original. Ela avançou bastante e seria a maior igreja de Alagoinhas”, explica a pesquisadora.
A arquitetura também chama atenção por misturar elementos de diferentes estilos. As arcadas da fachada lembram o gótico, enquanto outras características são inspiradas na arquitetura romana.

O TREM MUDOU TUDO

Mas enquanto a igreja era construída, um novo projeto transformava completamente a região: a chegada da estrada de ferro.
Em 13 de fevereiro de 1863, foi realizada a primeira viagem ferroviária entre Salvador e Alagoinhas. A estação havia sido construída a cerca de três quilômetros da sede da vila.
Rapidamente, comerciantes, moradores e serviços começaram a migrar para o entorno da ferrovia.
“Começou uma disputa entre quem queria permanecer na antiga vila e quem queria se estabelecer perto da estação. Como o movimento era muito maior ali, a população foi mudando”, conta Iraci.
Com o antigo núcleo urbano esvaziado, o governo deixou de investir na igreja. Sem recursos, a obra foi interrompida poucos anos depois.
Em abril de 1868, a sede administrativa do município foi oficialmente transferida para a região da estação ferroviária. A antiga vila perdeu protagonismo, e a igreja permaneceu inacabada.
“A vida administrativa passou para perto da estação. A igreja ficou isolada, mas sua estrutura era tão sólida que permanece de pé até hoje”.
Projeto da fachada da Igreja Inacabada de Alagoinhas — Foto: Arquivo Pessoal
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